Não precisa pedir desculpas, sabemos que é tarde. Nossa relação sempre foi complicada, mas isso não significa que eu guardei rancor ou coisas ruins assim. Eu era uma adolescente e você um senhor de idade. Vivemos em épocas e contextos diferentes. Não preciso me desculpar, eu sei que é tarde pra mim também.  Eu vim pra agradecer.

Agradecer que mesmo que por linhas tortas você foi esse pai-avô que me abraçou da maneira como o meu biológico nunca foi capaz de fazer.  Você me ensinou tanta coisa nesses 20 anos que passamos juntos. Quantas histórias não é mesmo? Lembro daquela foto minha posando em cima de uns dos seus carros. Talvez seja ali que tenha começado meu amor por eles. Você lidava melhor com eles do que com seres humanos, e era até cômico. Mas sem dúvidas você era o melhor no que fazia. Você que tentou o máximo que podia me ensinar a tocar acordeão mesmo que o instrumento fosse maior que do que minhas pequenas mãos conseguiam suportar. Você que me ensinou desde a dançar forró a montar a parte elétrica de uma casa.

Futebol não será mais a mesma coisa sem você. As quartas de jogo Flamengo não serão mais as mesmas. Entretanto, agradeço por ter vibrado em muitas finais de copas do mundo comigo também.  Você tinha um jeito interessante de me presentear que era totalmente fora da caixinha. As noites em que chegava com algum doce ou algum brinquedo “de menino”, sempre eram as melhores. Eu amava os carrinhos, trens e aviões de controle remoto. Mas também amava seu bom gosto para vestidinhos; e ir à feira de domingo e voltar com mais um peixinho ou qualquer bichinho que pudesse ser meu amigo além de você.

Você não precisou de um neto pra passar seus conhecimentos como homem. Sei que sua infância foi difícil e acabou não tendo tempo pra ser uma criança. Talvez isso explique o porquê dos brinquedos. Sei que sua visão de mundo era mais dura e você suavizou o máximo que podia pra aquela menininha que te esperava chegar do trabalho. Você me ensinou que mesmo sem ter estudo alguém poderia ser muito inteligente, e saber construir de tudo, e consertar também. A mulher que sou hoje é graças a muita coisa que vivi contigo.

A gente se amou muito, do nosso jeito, mas amou. Assim foi confirmado naquela minha última visita a você no hospital, onde nós choramos. Choro de agradecimento e amor. Hoje, diante desde túmulo, pela primeira vez presenteio um homem com uma flor branca. Li uma vez que significava admiração. Eu o admiro tanto. Considere isto um até logo. O céu não está tão longe assim. Não o suficiente para apagar o amor e o seu tempo por aqui. Obrigada, Pai.

Em memória de Manoel Dourado

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Sobre o Autor

Tentando sintetizar o mundo em palavras desde 1997. Nasci na cidade maravilhosa, mas sou do mundo. Em constante descontração. Praticante do deboísmo e levantamento de garfo. Protagonista de romances tragicômicos. Colecionadora de sorrisos. Casada com a liberdade. Nômade que deixa rastros em abraços. Mistério que se desfaz depois de uma boa conversa acompanhada de um bom vinho. Em busca de equilíbrio, amor e paz. Tentando chegar ao nirvana do foda-se.

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