Estou com fome. Me desculpem, eu gostaria de ter começado de alguma outra maneira. Mas a minha barriga não para de brigar comigo como quem diz: Ficar-sem-comer-não-é-saudável-meu-rapaz. E quem me dera isto fosse uma mera opção. Mas não é. Logo logo o anoitecer chegará e o frio gelado me fará companhia novamente. Acho que até já me acostumei com isto. Mas a vontade de comer que só aumenta aqui dentro é difícil de se familiarizar. Eu só queria um pedaço de pão, sei lá. Uma bolacha ou um copo de leite. Alguma coisa que pudesse me esquentar e acabar com este vazio gigantesco. Apenas as lembranças que tenho dos meus pais me acalmam um pouco momentaneamente. Tenho saudades do colorido da vida que costumava enxergar, saudades dos abraços apertados e calorosos. Saudades de casa, do quarto, da cama. Quanta saudade! E quanta fome!

Estou aqui deitado na praça por horas e horas sem ingerir qualquer tipo de alimento, sem um olhar carinhoso por perto, sem alguém que me note por aqui. E você nem imagina como é ser invisível. Eu sei. Me sinto tão imperceptível que até a comida eu não sou capaz de enxergar. A esperança de tudo voltar a ser como era antes é o que me mantém vivo nestas madrugadas geladas e vazias. Rezo todas as noites para que nunca falte alimento em tua casa, pois você não sabe como é ficar vinte e quatro horas lutando contra o tempo. Alimentando-se do vento, que por sinal, não tem gosto algum. Barriga vazia não dar sono, meu caro amigo. O frio gelado da noite não dar sono. A chuva pesada no corpo de quem não possui uma coberta, não dar sono. Dormir sem um beijo de boa noite de alguém que tanto te ama, não dar sono.

Não te culpo por eu estar aqui nesta situação. Nem espero que um dia você me note, e quem sabe, me convide para jantar em algum restaurante legal da cidade. Mas eu espero, de coração, que você dê valor para as coisas mais simples da vida. Pois são estes pequenos momentos que dão razão a tudo. Estes impactantes instantes que tornam tudo tão perfeito. Como em um abraço apertado de um filho na própria mãe a cada nascer do sol. Como em um conselho de um pai que servirá para toda uma vida. Como em um gesto de carinho para pessoas das quais você nunca imaginou ajudar. Como em um simples olhar carinhoso a alguém que você deseja cuidar.

“…Como dividir um pequeno pedaço de pão com alguém que anda com fome pelas ruas, e que talvez, não vai ter onde dormir esta noite…”

Pequenos gestos que mudarão a tua vida para sempre. Momentos de impactos que não somente ficarão marcados eternamente em tua alma, mas em todos nós.

Por: José – Morador de rua.

Adaptação por: Pedro Ficarelli

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Sobre o Autor

Apaixonado pela poesia feminina. Acredito fielmente que o amor seja o infinito que resolveu morar no detalhe das palavras. Muito prazer, eu me chamo Pedro Ficarelli, e escrevo com o único intuito de pôr palavras onde a tua dor se faz insuportável.

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