Hoje, quando a noite der os primeiros passos, e se mostrar toda prosa, será um ótimo momento para eu perder o juízo.

Justo eu, sempre tão certinha, já tinha que ter perdido há muito tempo. Mas como dizem por aí, tudo tem a sua hora e a minha chegou. É hoje!

Como deve ser uma vida sem juízo? Você simplesmente se joga, transborda e grita bem alto quando der vontade?

Manda recadinho no Instagram e responde ao stories: rapaz, tu é gato!?  Perder o juízo é poder fazer qualquer coisa que “der na telha”. Essa expressão tá entregando a idade e confirmando que eu deveria ter perdido o meu faz tempo.

Se tem algo que nunca entendi, foi o fato de algumas pessoas sempre me falarem a cada aniversário: juízo, heim!

Gente, pra que? Pra ficar adiando coisas, pensando sempre duas vezes se deve mesmo falar: porra, vem cá! Vamos ficar juntos essa noite.

Juízo é uma merda, e dói quando você menos espera. Vamos resolver isso na prática pra facilitar os indesejados da gente: que todos nasçam, a partir de agora sem juízo, só pra depois não ter que ficar remediando.

Quer saber, quanto mais você adia essa coisa toda de se jogar na vida, depois ela vem e te cobra em dobro. Começa a doer e fica latejando, principalmente à noite. Tem coisa mais triste e desesperadora e solitária do que chorar e deixar o travesseiro gelado?

Só é expert nisso quem não perdeu o juízo mais cedo. Os retardatários, como eu, precisam agora remediar tudo com os fármacos mais pesados do mercado. Amoxicilina 500mg, Nimesulida 100mg e Paracetamol, pra iniciar o open bar.

E como você se sente depois que descobre que todos os seus amigos foram mais precoce que você, e largaram faz tempo essa coisa de ter juízo.

Meu Deus, por que sempre comigo? Em qual setor eu saio na frente, heim? O legal disso tudo é fazer minha mente refletir: o que eu poderia ter feito se não tivesse juízo?

Certamente, teria dito mais vezes: eu quero, vamos ali tomar algo? E se a gente fizesse isso juntos? Uma vida inteira de iniciativas, teria sido bem por aí. Teria assumido relacionamentos não autorizados: eu vou e pronto.

Teria comprado bem menos coisas e gastado muito mais com experiências. Teria caído no mundo de mochila nas costas muito mais cedo e dane-se a pós-graduação. Mas não, eu fiz o inverso por culpa do juízo.

Tem sido ele o responsável de tantos não posso, não devo, isso não é permitido. Mas é hoje que eu dou um basta nisso tudo. É hoje que arranco meu siso de uma vez por todas.

 

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Sobre o Autor

Erika Freire

Jornalista, nascida em Santos, mas atualmente mora em Montevidéu. Gatos, chocolate, séries, viagens e música são essenciais. Escreve, escreve, toma café; depois escreve de novo. Tem crônicas publicadas e é autora do livro Infantil “As aventuras de Firmina Dalva e seus amigos”.

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