Escreve para mim, ela pediu com a mão pendurada para fora da janela do vagão do trem que aquecia os trilhos.

Escreve para mim, ela anotou no papel branco, rasgado de forma descuidada, de uma folha qualquer de algum lugar que passaram juntos, ela não se lembrava, mas foi o que escolheu para passar da sua mão para dele antes que o trem acelerasse.

Escreve para mim, foi o que ele leu no papel branco, amarrotado, já sem a presença física dos dedos, mas com o perfume que ela havia borrifado um pouco antes de o entregar.

Escreve para mim, foi o que ele escreveu no cartão postal enviado da cidade que os viu juntos pela primeira vez, naquela ponte antiga, ela de um lado e ele de outro, num daqueles dias preguiçosos de um verão que tem hora certa para acabar.

Escreve para mim, foi o que ela disse ao telefone, quando as folhas das árvores da sua rua, amontoavam-se num canto, e o guarda-chuva, era já, uma constante.

Escreve para mim, ele respondeu assim que recebeu a carta dela, numa folha nova, pautada com linhas cinzentas, que junto enviou com uma fotografia polaroid dele na neve abraçado a um boneco.

Escreve para mim, ela disse baixinho ao peluche que ele havia enviado pelo correio, numa caixa com o seu nome como destinatário entregue pelo carteiro.

Escreve para mim, ele gravou no pingente que planejava dar-lhe quando o trem voltasse à estação.

E por que as histórias também podem ser felizes, ouviu-se naquela tarde em que o calor saía do asfalto, de um lado e de outro, entre os trens, “Escrevi, escrevi …”.

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Sobre o Autor

Viviane de Almeida

Viviane, nome de batismo. Gosto. Lembra vida e pode ser dito em vários idiomas. O quotidiano é o meu lugar. A palavra me orienta e no cinema viro ficção. Escrevo curto. Recorto. Procuro o "cisco" que faz a diferença. Vício? Café.

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