Você pode ler isso ao som:

Sala vazia. Casa vazia. Não se ouve nenhum tipo de som. Nem fora, nem dentro da casa. Trancada e empoeirada. Não há um inquilino. Já faz fazia meses que ninguém morava ali. Não havia previsão de volta de ninguém que já tivesse ali habitado. Todos se foram, deixando seus rastros pela casa. Alguns foram só visitantes, outros planejaram passar toda uma vida ali. Mas agora, nesse instante, o silêncio reinava. Era provável se ouvir o eco da própria voz.

Era uma casa simples. Nada de extraordinário. A fachada era bonita. Bom, isso quando alguém ainda cuidava dela. Houve um tempo, você precisava ver, ali era só alegria. Festas, comemorações e tudo mais. Era de se invejar. Era um calor. Uma felicidade, não havia tempo ruim. O dono sabia viver. Esse sabia.

Foi no inverno. Em agosto? Talvez. As coisas mudaram. Nada na casa era como antes. Tudo se aquietou. O vizinho sorridente não estava mais ali. Ninguém viu o dono ir embora. Mas acho que a intenção era essa. Simplesmente ir.

O dono partiu. Partiu, pois precisava de um tempo de todas as histórias que tinha se passado naquele lugar. Partiu porque havia muitos fantasmas e demônios que ele ainda não sabia encarar. Era necessário um recomeço. Era necessário se dar um tempo. Viajar. Conhecer. Experimentar. Era sair e se reencontrar. E convenhamos, todos precisamos disso em algum momento da vida. Todos têm que lidar com momentos eufóricos seguidos pelos ruins, e vice-versa.

Certa manhã, o dono volta. Abre a porta. E já não tem mais medo dos fantasmas e demônios. Ele os expulsa. Grita e se sente confortável com o eco da própria voz, que antes o incomodava tanto. Ele limpa os móveis e tira o pó. Arruma tudo por dentro e depois a fachada. Uma pintura aqui, outra ali. Um conserto ou outro. E de repente, tudo parece como antes. Ele se senta em sua poltrona naquele fim de dia, e já não há ninguém do seu lado como antes. Satisfeito, bebe um gole do café, e decidi chamar aquilo de paz. A casa volta a ser um lar. O seu lar.

A vida é a assim, às vezes, por mais que pareça que tudo está bem ainda resta um vazio no nosso coração. Ninguém bate mais na porta dele. E a gente tranca tudo e vai embora. Vai buscar abrigo nos outros. Vai buscar consolo. E só a gente sabe os motivos da partida. E tudo bem se fechar. Tudo bem precisar de um tempo. Tudo bem. Só não se esqueça da sua placa de “Fechado para manutenção”.

Volte. Volte quando estiver preparado. Volte quando entender que você precisa ser seu próprio abrigo. Volte e reconstrua seu coração. Jogue fora o que achar necessário. E faça dele o seu lar. Cuide de tudo e de quem está lá dentro. E se não tiver ninguém? Cuide mais ainda. Plante flores no jardim. Que um dia chega alguém, e entra assim do nada. E rega seu jardim com amor. Enquanto não chega, bom, você é será próprio abrigo.

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Sobre o Autor

Tentando sintetizar o mundo em palavras desde 1997. Nasci na cidade maravilhosa, mas sou do mundo. Em constante descontração. Praticante do deboísmo e levantamento de garfo. Protagonista de romances tragicômicos. Colecionadora de sorrisos. Casada com a liberdade. Nômade que deixa rastros em abraços. Mistério que se desfaz depois de uma boa conversa acompanhada de um bom vinho. Em busca de equilíbrio, amor e paz. Tentando chegar ao nirvana do foda-se.

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