Mais uma sexta-feira de uma semana qualquer, e eu passei o dia todo pensando o quanto te quero, tentando me concentrar no trabalho, transpirando embaixo dessas roupas sujas em meio ao inverno mais rígido. Eu tenho essa sede por você. Uma coisa que queima por dentro. Eu diria que o meu corpo sente abstinência do seu, entrando em colapso, sofrendo pela distância, e sendo torturada pelo relógio que insiste em ir mais devagar que o normal.

O telefone toca e ele diz pra jogar umas peças na mochila e que está me esperando na portaria. “Adoro quando sua saudade te traz até minha porta assim do nada, sem cerimônia”, não me segurei em dizer… Alguns minutos depois, e lá vou eu ao seu encontro. Acompanhado de seu carro de estimação; um Ford Cortina MK3, 1972, sedã médio de cor preta. “Fez sucesso na Europa”, diz ele com entusiasmo. E eu amo o jeito menino-homem dele, como se delicia falando das coisas que ama e de quem ama. Ele não me diz para onde vamos e nem importa, isso nunca foi a parte mais relevante.  Eu iria a qualquer lugar com ele. Dirigindo por aí no meio da noite, escutando músicas que nos fazem sentir como se a juventude não fosse finita, como naquela letra do Alphaville: “Forever young, I want to be forever young.”

Infelizmente nunca foi de admitir que não era bom com rotas, e como o carro era antigo, não possuía GPS. Um carro traz muitas histórias consigo, e naquela noite, a gente fez a nossa ali bem no banco de trás. Eu me perdi nele e ele em meu corpo. E com a mesma firmeza em que ele segurava o volante, puxava seu corpo contra o meu. E puxava meu cabelo e perdia aos poucos aquela pose contida. Era desejo de se saciar, de matar a sede direto da fonte a ponto de se afogar. Como se ali fosse seu templo de perdição, a forma mais pura de pecado, de descer até ficar o mais quente possível. Cada célula clamando por mais. E estou me desprendendo da minha própria pele, soltando a fera que ferve dentro de mim, procurando cura. E ali, me rendo.

Os gemidos reverberam pelos quatros quantos. E mesmo com a chuva lá fora, a gente entra em combustão. As pontas dos seus dedos fazendo mágica, brincando comigo, apertando meus botões como um perfeito player. E hoje eu sou sua player dois. Estrategicamente traço uma mapa do seu corpo, percorrendo os caminhos mais perigosos, fazendo dele uma tela onde minha língua é o pincel. Você me morde na intenção de deixar suas digitais, me marca a pele e alma.  Sei que quer me sentir por dentro. O desespero do tato ao perseguir o gozar é inevitável. Aprecio suas pintas que mais parecem estrelas dentro de uma constelação e me desfaço no seu olhar. Um olhar de “era esse o significado de foder com vontade”. Um olhar de consentimento meu. No mesmo ritmo de uma música de rock que começa lenta e vai aumentando gradativamente e explodindo no refrão, quanto mais rápido, mais alto voamos e maior é a queda livre no êxtase. E eu poderia passar a noite toda vendo a cidade adormecer, e repetindo tudo isso, porque é tarde demais pra negar o meu vicio em você e o seu em mim. E sei que fugiríamos da reabilitação na primeira oportunidade, só pra viver num looping infinito, esperando o mundo acabar lá fora. E, agora, peço toda vez que lhe encontro, olhando de forma furtiva: Me arraste para o seu banco de trás.

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Sobre o Autor

Tentando sintetizar o mundo em palavras desde 1997. Nasci na cidade maravilhosa, mas sou do mundo. Em constante descontração. Praticante do deboísmo e levantamento de garfo. Protagonista de romances tragicômicos. Colecionadora de sorrisos. Casada com a liberdade. Nômade que deixa rastros em abraços. Mistério que se desfaz depois de uma boa conversa acompanhada de um bom vinho. Em busca de equilíbrio, amor e paz. Tentando chegar ao nirvana do foda-se.

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