Eu não esperava. Tinha deixado pra lá toda essa história de vida amorosa e focado em mim. Passei por todos os clichês de fracassos amorosos, desde o relacionamento abusivo àquele em que eu fui o embuste da vez. Eu te encontrei bem no meio do caminho, onde eu já havia perdido a cabeça em meio aos problemas e rotina que me torturavam. Onde a bagunça tinha se espalhado pela sala, pelo quarto, por toda casa, e até dentro de mim. Eu que sempre pensei que dá próxima vez que encontrasse um amor, estaria com a vida toda a arrumada pra receber.  Mas você se adiantou e de repente já estava por aqui com esse sorriso despretensioso. Você chegou e era eu só o caos. Resultado de traumas e das tantas vezes que depositei amor em solo infértil.

E eu tentei te avisar que eu era confusão. Que não fui feita pra isso.  Que era de um tipo desapegado e que a única paixão da minha vida era viver histórias intensas e depois escrever sobre elas. Como eu poderia saber que você seria uma dessas histórias?  Eu não procurava um amor. Eu tava bem. Saindo por aí. Um lugar diferente a cada final de semana.  Umas festas, umas bebidas, papos furados com gente que eu nem lembraria o nome no dia seguinte, uns beijos e algumas risadas. Eu me amei sozinha por muito tempo até te encontrar.  Eu sempre fui companhia de uma noite só nas vidas das pessoas.  Eu já tinha meu script pronto. Era pra ser um date como os outros. Nada que iria pra frente. Mais um bar, música boa, comida, minhas piadas baratas, e com sorte, uns beijos no final da noite. Ir trocando ideia por mensagens até você de conhecido virar um desconhecido.

Eu carrego uma bagagem enorme de decepções e não dá pra ignorá-las.  As feridas já tinham sido curadas, mas deixaram cicatrizes. Cicatrizes que me lembravam que amar alguém poderia ser perigoso.  E pra quem era feliz sozinho, se aventurar a dois era risco demais. Com o tempo eu aprendi a me proteger. Porque da última vez que deixei alguém entrar, tudo ficou de pernas por ar. E eu levei tempo demais tentando arrumar e ainda assim, há muita bagunça aqui.  Eu precisei ir embora, tirar férias de mim até voltar pronta pra por tudo em ordem. E você apareceu no meio do processo pra me mostrar que eu jamais estaria pronta.  Que amor aparece pra te dar um propósito e isso é alheio ao nosso preparo e vontade. Ele vem pra transformar, vem com potencial pra deixar tudo melhor e cabe aos envolvidos ter empenho e cuidado pra não virar algo ruim.

E mesmo sabendo que não seria fácil, você continua aqui. Mesmo depois das minhas falhas tentativas de te mandar embora. Mesmo depois de te mostrar as minhas tempestades e vendavais.  Mesmo depois de ver os meus erros e defeitos. Mesmo após todas as histórias com ar de “ela é só mais um rostinho que vai te desgraçar” pra te assustar. Você continuou enxergando beleza em mim. Você abraçou a mim. Abraçou a bagunça. Beijou cada cicatriz, e me disse nos pequenos gestos que você era a melhor opção pra mim. A melhor coisa que me aconteceu em tempos. Eu nunca precisei de ninguém pra ser feliz, mas ter alguém que deixa a vida mais leve faz do coração mais forte. Seu jeito torto e atrapalhado me fez entender que mesmo não tendo alcançado tudo aquilo que eu queria na vida ainda, eu seria capaz de fazer alguém feliz. Você foi o acaso mais lindo que já me aconteceu. Obrigada pela chance de te amar.

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Sobre o Autor

Tentando sintetizar o mundo em palavras desde 1997. Nasci na cidade maravilhosa, mas sou do mundo. Em constante descontração. Praticante do deboísmo e levantamento de garfo. Protagonista de romances tragicômicos. Colecionadora de sorrisos. Casada com a liberdade. Nômade que deixa rastros em abraços. Mistério que se desfaz depois de uma boa conversa acompanhada de um bom vinho. Em busca de equilíbrio, amor e paz. Tentando chegar ao nirvana do foda-se.

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