Jogo de xadrez. Batalha de cores. Rainha branca come peão preto. Sem clemência, jurando inocência. “Estamos em guerra” clama a alva soberana despejando a espada sem dó sobre o lacaio (com certeza, preto, ou negro, ou afrodescendente, ou…). As terminologias mudam moldadas à temporalidade, mas o preconceito permanece. Altivo, fuleiro, soberbo. O que adianta mudar o linguajar e manter a estupidez humana? Vamos celebrar tal estupidez, como diz a canção do Legião. Vamos alimentar a maldade e machucar o coração. Que feio.

Na televisão, a chamada para o programa do Caco Barcelos: “… no Profissão Repórter dessa semana, acompanhe a trajetória da vida das pessoas negras no Brasil em relação ao racismo…” e por aí vai (ou vão???) uma eternidade (várias eternidades!!!) de dívidas eternas do mundo em relação a qualquer tipo de preconceito.

Ao meu lado no sofá, um parente distante olha a televisão com certo interesse e faz a ofuscante e pedante observação: “preto é muito mais racista do que branco”. Única explicação: o cidadão mora em Marte, onde os marcianos são verdes. Só pode ser. Olho para a figura ao meu lado. Fecho os punhos. Prendo a respiração. Pena, desprezo, tristeza, raiva contida. Deveria ter ficado furioso com o dito cujo, levantar bandeira, travar duelo naquele instante, mas comprometeria a semana de férias da família em bucólica cidade do interior paulista. Onde a maioria dos habitantes é de pessoas brancas. Pardos, nem pensar.

Até quando vamos brincar de sinhozinho? Até quando o chicote vai soar impunemente no pelourinho? Levanto-me. Vou tomar um ar (que não é branco, nem preto) no quintal (verde). Deveria ter ido tomar leite (que é branco) ou até mesmo Coca-Cola (que é preta). Ou comer um chocolate (marrom, quase preto) na despensa da cozinha de azulejos (brancos). Lembre-se que o Laka (que é branco) não é chocolate. Saio meio sem destino para espairecer. Esquecer. Para me recobrar das sensações ruins de ouvir nefasto absurdo em pleno século 21.

Na FLIP de Paraty desse ano, o ator e escritor Lázaro Ramos (negro) escuta o depoimento de uma participante da sua palestra, dona Diva (negra), sobre as barbáries feitas aos antepassados (negros) que respingam até hoje. Emociona-se. Emociono-me. As regras da senzala continuam vivas, cínicas, sem trégua, sem colocar uma pá de cal (branca) sobre o mármore (preto/branco/rosa) definitivo.

Ao dormir, penso em uma oração, mais em forma de castigo do que agradecimento ou solicitação: “Papai do céu (será ele negro/branco/mulato/caboclo?), transforme a pele desses seres branquinhos. Faça-os caminhar por onde moram mesmo, só para viverem momentos emocionantes do que é ser pintado por fora de outra cor. Amém”. Bastariam quatro horas de andanças. Pela vizinhança. Para sentir a cruel situação dos que sofrem preconceito desde o nascimento. Por dentro, somos cor de carne (vermelha). Por fora, pão bolorento (branco e verde), como dizia meu pai.

p.s. no dicionário, o sinônimo de preconceito é ideia formada sem fundamento sério. Pior, que é sério. E vale a pena lembrar que o autor desse texto nasceu branco porque nasceu assim.

Leave a comment

Sobre o Autor

Paulo Mauá

Escritor, músico, engenheiro e caiçara (não necessariamente nessa ordem de preferência). Adoro viajar, shows, namorar, as filhas e a mulher, cinema com pipoca, caminhar na praia, ler, ter escrito O Circo Panapaná, A Orquestra Panapaná e muito mais ainda a rabiscar...

Deixe um comentário

Seja o Primeiro a Comentar!

Notify of
avatar
wpDiscuz
Close