Você pode ler isso ao som de:

Relógio desperta, mas eu fico na cama por mais uns minutos, juntando forças pra encarar o mundo lá fora. Eu tive mais um sonho e acordo confusa. Primeiro um pé, depois o outro. Coloco uma roupa, me olho no espelho, mas não me enxergo. É como se num prisma de cores, eu fosse aquela que não conseguiu se definir e ficou difusa. Tomo um café, mas não sinto o gosto. Pego minhas coisas e sigo meu caminho. Coloco uma música pra tocar, a mesma dos últimos dias, que não sai do replay.

Entro no ônibus, sento no mesmo lugar de sempre, perto da janela. Eu pareço em transe com aquela melodia. De uma certa forma a música me anestesia. A letra diz algo sobre proteger sua alma, sua inocência. Tento lembrar mais uma vez do sonho, porém ainda sinto a minha cabeça bagunçada. Engraçado porque é a única coisa que sinto de uns tempos pra cá: bagunça. Coração e mentes confusos. De uma certa forma sinto que algo não se encaixa. E esse algo sou eu.

Rotina. Sigo o mesmo padrão de tarefas todo dia, como um robô. Vejo pessoas iguais com rosto diferentes todos os dias. Todos com semblante de tristeza, cansaço ou frustração. Difícil encontrar um sorriso no meu caminho. Digo, um sorriso de verdade, daqueles que vem da alma, sabe?! Olho no reflexo da janela e vejo o mesmo semblante em mim.

No trabalho, apesar de todas as responsabilidades, vou soltando algumas risadas pelo dia e vejo que já consigo achar graça de algo. Sinto um pouco da sensação de anestesia se esvair aos poucos, levando também a inquietude. Um fluxo de pensamentos surge pra me distrair mas me contenho. Um cliente entra pela loja, minutos depois, usando um blusa de banda de rock. E de repente, eu lembro.

Lembro que era a sua banda de rock favorita, não tinha como esquecer. Você estava com ela no nosso primeiro encontro. Já faz quanto tempo que não te vejo? E porque tudo aconteceu daquela forma? Um mar de perguntas surge mas sei que não terei as respostas. Quando um amor chega ao fim, o que resta é uma série de questionamentos. A gente pensa no que fez ou deixou de fazer, no que poderia ter dito para evitar o fim. Mas aprendi que não precisava te entender, que só precisava te esquecer. E por isso a despedida.

Olho pro relógio e já chegou o fim do expediente. No caminho de volta, ouvindo a mesma música, lembro do sonho. Era você, na minha porta, dizendo que me quer mas que não pode ficar. E num piscar de olhos, você não está mais lá. Eu quis isso por tanto tempo, digo, ver seu sorriso na minha porta novamente. Mas diferente do sonho, eu que fui embora. Eu nunca consegui me encaixar na sua vida porque você não quis ou não podia. Mas não me importo mais. Eu fui embora por mim. Porque eu não merecia estar na sua estante, empoeirando enquanto você decidia se queria seguir ao meu lado. Eu não podia esperar, ninguém pode. O amor chega num compasso decisivo e não há como deixar pra depois.

Eu sei, eu sou boa demais em despedidas. Pode me chamar insensível, se quiser. Eu não fiquei de luto pela gente por muito tempo. Queria dizer que sou nova e sem cicatrizes, mas já vi essa história antes. Não podia me apegar ao roteiro lindo de romance, se a realidade não condizia. E por mais que um sentimento possa ser forte, não significa que devemos aceitar menos do que merecemos. Suas atitudes nos puseram numa corda bamba, e meu bem, todo mundo via o circo que a gente era. Eu só fui embora antes dele pegar fogo. Não podia ficar só por amor, eu precisava de certezas, as quais nunca tive do seu lado.

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Sobre o Autor

Tentando sintetizar o mundo em palavras desde 1997. Nasci na cidade maravilhosa, mas sou do mundo. Em constante descontração. Praticante do deboísmo e levantamento de garfo. Protagonista de romances tragicômicos. Colecionadora de sorrisos. Casada com a liberdade. Nômade que deixa rastros em abraços. Mistério que se desfaz depois de uma boa conversa acompanhada de um bom vinho. Em busca de equilíbrio, amor e paz. Tentando chegar ao nirvana do foda-se.

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